terça-feira, janeiro 23, 2007

Diário de Bordo - Dia 14


















O caminho

O meu faról está refeito. Consertados os degráus da longa escada. Há que retomar o leme. No alto, já brilha a luz concertada. Como nunca.
E sigo. Sei que o tempo não é só, nem bonança nem tempestada. Há dias normais, de vento e nortada. Há dias de simples maré viva. E há dias cinzentos outros brilhantes.
O meu caminho segue rumo ao incerto. Rumo, ao incerto, que é o mesmo lugar. Mas segue, no navegar de um novo poema, que me cai dos dedos:

Sigo num sentido incerto
Traçado num caminho desfeito
Tomo um atalho de areia
Oiço o mar bravo por perto

Bravo o vento também
Soprado de num céu coberto
Me embrulha o Norte e o Sul
Me envolve o mal e o bem

Perco-me numa duna de areia
Plantada de juncos escassos
Olho uma lua que espia
No morrer de uma tarde feia

Mas há uma onda que traz
A mesma espuma de sal
Que se entranha pelos lados
Que abraça de frente e de trás

Tiro um bilhete de ida
Quero navegar nessa espuma
Gozar o seu verde que brilha
Nos meus olhos - na minha vida

quarta-feira, julho 19, 2006

Diário de Bordo - Dia 13




De repente... paz

Os vidros quebrados. A porta arrombada. O meu diário a secar.
O vento já não sopra. A noite deu lugar a um sol que me enxuga.
Diz-se que é a tal bonança, que aparece sempre antes e depois das tempestades.
Ainda não é o tempo de me perguntar, como tudo aquilo aconteceu.
Porque me desviei de uma rota certa, rumo ao mesmo lugar?
Como conseguiu o meu farol não se afogar?
São perguntas a que um dia o meu farol me fará. Mas não hoje. Hoje, só quero mesmo é descansar.
Pela porta, quebrada, saio por momentos. Como se me esquecesse dos ventos, que ainda agora ali sopravam.
Na areia, que a tempestade deixou grossa e molhada, construo qualquer coisa.
Uma, duas, três... cinco torres! Brinco na areia. Olho o mar logo ali. Antes de ter que voltar a entrar. Antes de ter que voltar a arrumar, limpar, concertar. Antes que o sol se ponha, o meu farol tem que voltar a brilhar...

terça-feira, julho 18, 2006

Diário de Bordo - Dia ... 1º do resto dos dias



Penélope

No meio da tempestade, perdi o meu diário, pelo porão.
As horas e os dias, confundiram-se então. As nuvens omitiram-me o amanhecer e degradaram-me o entardecer.
Mesmo sabendo que as tempestades sempre dão lugar ao calmo mar, tardei em achá-lo. Até, em procurá-lo.
Ainda pensei, quando as ondas me atiravam no ar e me faziam depois mergulhar e quase afundar, que melhor seria lutar sem lutar. Simplesmente, deixar-me estar. Deixar que a maré para longe ou perto me levasse e a rota me devolvesse. Ou não...
Valeu-me então um raio de sol, súbito e sem aparente sentido. Trazia algo!
No casco roto da minha nau, pela porta quebrada do meu farol, entra uma garrafa e logo se estilhaça.
Afasto os cacos e logo me pergunto, como foi possível tanto navegar, sem antes quebrar? É que parece vinda de longe. E parece ser o acaso que ali ma traz.
Agarro a mensagem que dela cai. Diz numa enigmática linha: “Como Penélope, esperei, fiando e desfiando os dias”.
Se o cansaço me aconselha indiferença, à chuva, às nuvens, ao vento e até já ao meu diário, aquela mensagem, que como por esotérico destino se estilhaça aos meus pés, devolve-me a vontade. Afinal, ao longe, mas não tanto assim, já brilha de novo o meu sol. E como que por destino, ainda molhado, vislumbro no canto o diário.
As águas balançam, ainda. O vento uiva por entre os vidros quebrados. A lâmpada do meu farol, está quebrada. Mas brilha-me o sol, que uma manhã me feriu o olhar, quando em terra firme ainda caminhava.
Reconheço-o. Tem o mesmo brilhar. E se Penélope me escreve, então, terei eu que ser guerreiro no alto mar.

terça-feira, julho 11, 2006

Diário de Bordo - Dia 11





















Trevas

Os ventos uivam-me. Do céu caem pedras de gelo. Grossas, atingem a minha nau. A porta do farol, de madeira enegrecida pelos anos, é a primeira a ceder, deixando penetrar-se pela água fria e descontrolada. Torna-se desconfortável a minha nau, com o sopro que rodopia nos intermináveis degraus. Não sei se desça para tentar fechar a porta que trás o vento e o sal da água, correndo o risco de me perder, permaneço, assistindo impávido à destruição do meu íntimo. É um momento difícil. Ao leme do meu farol, sinto que perdi todo o controlo, a rota e até o destino. Até que, mesmo a esperança na bonança que sempre vem após a tormenta, é abalada por uma enorme pedra de gelo. Enviada do mesmo céu que me deu o sol, a luz, o azul, o calor e até o mais perfeito arco-íris, trespassa-me o vidro, estilhaçando o resto de razão que ainda orientava a minha nau. Voam os mapas das estrelas que, no bom tempo, me orientavam.. Parte-se no chão encharcado a bússola que apontava o meu norte. Giram memórias no ar, aventadas por um vento que já nem tento contrariar. As memórias. O mais difícil. Mais que a perda do mapa que me havia de levar ao quente e seguro porto. As memórias são o que mais atormentam o momento. Recordo imagens nos espelhos que reflectem a luz do farol. Fugidias ou nítidas, dos prazeres de outros tempos. De incomparáveis sorrisos, de notáveis perfis. De ofuscantes reflexos. Por momentos, ainda a luz do farol me segura na tentação de mais recordações, mas logo nova pedra de um granizo fustigante trespassa a lâmpada, estilhaçando-a no espaço e devolvendo-me à escuridão total. Aí, essas imagens que há pouco ainda me traziam algum conforto, passam a ser tão pesadas como a minha própria nau. No escuro profundo, passa a ser insuportável imaginar que as não volto a ver. No vento ruidoso, profundo. No escuro absoluto, nem sei se ainda respiro. Desinteresso-me mesmo. Até pela nau que, afinal, já nem sei se me alberga ou transporta, ou alguma vez me tirou do mesmo lugar. Quase me apercebo do real - estar sempre preso pelos fatais alicerces, à rocha dura. Naquele instante. O meu farol não navega. Já não sei quem sou. Verdadeiramente... estou perdido.

segunda-feira, julho 10, 2006

Diário de Bordo - Dia 10



Pintura

A noite consome-me à medida que se consome.
Gasta-se, como pavio quente de vela que a seguir se apaga.
A pouca luz da minha nau vai-se com o sopro cada vez mais forte do escuro do céu.
Por pouco nem vejo as ondas. Sinto apenas o seu bater, insistente. A ir e a vir. Mesmo que procure culpar o gosto suave do arco-íris, por esta estranha rota de tempestade que tomei, recordo o arco-íris que me fez sonhar e que ali me trouxe. Já não posso voltar a encontrá-lo no céu. Pinto-o na tela, tentando esquecer as horas. Reproduzo-lhe as cores vivas no céu cinzento. O resultado, é um fundo negro, salpicado de cores que traço, afinal, com menos precisão do que a água que veio do céu.

Diário de Bordo - Dia 9



Já sem sol

Não sei onde navego, agora.
Das cores e dos sabores, já apenas sobram sombras e um travo amargo de nevoeiro.
A noite chegou. A noite sempre chega! E com o escuro da noite não há arco-íris.
O sol fugiu. Mas não as nuvens. A água cobre-me agora, por baixo, batendo e batendo nas pedras dos meus alicerces, abanando o meu farol... e cobre-me também por cima. Vem do céu! Mas, de tanto insistirem, as gotas, e queimarem no meu rosto, julgo vês-la vindas das profundezas quentes, onde controla outro arcanjo.
Confundo os lugares, à medida que deixo escorrer, como lágrima, mais uma dessas gota. É, afinal, a mesma gota que ainda ontem me enganava, reflectindo um fantástico espectáculo de cor.
Hoje, aprendi que água é apenas água. Mesmo a salgada e mesmo a que, por capricho e acaso, se componha para, num acto poético, dar à luz um arco-íris. Arco que, afinal, não passa de pura ilusão de óptica, reflexo de imaginada felicidade.
Mesmo sentindo a gota percorrer todo o meu rosto, mesmo sentindo que, uma vez chegando ao meu queixo, se irá precipitar no mar que fito à minha frente, confundindo-se com tantas e indiscriminadas dores, para não mais a encontrar… mesmo assim, ainda aprecio o seu gosto. Ainda dela tiro um brilhar. Ainda a consigo amar...
... mesmo perdido no mar, sem sol, sem cor e sem luar.

quarta-feira, julho 05, 2006

Diário de Bordo - Dia 8






















Arco ou Ponte?

Se o brilho das espadas afiadas me não cortou o caminho, o dócil arco-íris seduziu-me o olhar.
Como é possível o branco - que é nada - ser tudo e todas as cores e sabores?
Húmido, o olhar que me vê do alto das nuvens. Fundidas, umas nas outras, as cores que me chamam.
Caminho veloz, agora, com novo destino ao brilhante, que a lenda me dá, procurando o desejo, no fim do arco cintilante.
Já sem vontade de olhar a rota que me devolve o lugar, de onde sete dias antes larguei, navegando.
Sinto o cheiro de mar, a pele do luar, o sabor do suar.
Trespasso as cores, que se diluem no ar.
Perco-me. E volto para trás, mas sinto que, além das lágrimas que se largam do céu, já só restam pedaços do arco que quis abraçar. Não quero encalhar. Só me quis desviar. Ou será, que além de luz que paira nas gostas do ar, se esconde outro arco ao fundo? Com alicerces no Mundo?

terça-feira, julho 04, 2006

Diário de Bordo - Dia 7






















Arco-íris

Os primeiros dias passam. Já adormeço no embalo das ondas, que de princípio me estorvavam a razão. O vento uiva-me segredos profundos, gerindo a velocidade com que escorrego no mar avesso. Agora navego, em cruzeiro, desferindo rasgos profundos no mar.
Até que um dia, do cinzento de um céu pesado, se abre a luz.
O meu farol detêm-se, como que temendo o fascínio dos raios que se atravessam. São espadas reluzentes, que penetram o manto de água, sem se vergarem. E reluzem fascínio. Lâminas que brilham, provocando a curiosidade perigosa de as tocar. De navegar na sua tangente. Aproveitar a luz, sem perder o rumo e desviar do horizonte o olhar.
O farol quer embargar o caminho. Mas não lancei a sua âncora. Não quero nem parar o caminho nem desviar o olhar. A minha sede, faz-me sempre navegar.
Passo ao largo, lento. Como se quisesse tocar sem tocar. Ver sem olhar.
As nuvens abrem, mas atrás, a chuva cai.
Gotas grossas que se espalham no ar.
Atrás do mar, em todo o ar, se estende agora um novo horizonte.
No céu, se desenham as cores. Todas as cores. Sete, ao todo e em arco. Marcado. Definido. Como se riscado por mim. O arco que me chama às espadas, que do céu se carregam em riste.
Uiva o farol, certo do caminho traçado. Hesito eu, clamando pelo prémio da lenda. Perto do tesouro do conto.
Num rumo novo, em curva. Navego, agora, sem destino.

sexta-feira, novembro 26, 2004

Diário de Bordo - Dia 6



Ler-me

Caiu a noite.
O céu descobriu-se mostrando estrelas, abrindo-se ao vento fresco que sobressai da noite salpicada de mar.
Ao longe, para o longe, pisco o olho do meu farol aos navios que passam.
De noite, são todos do mesmo tamanho. São todos só a luz que os assinala.
São todos da mesma importância, da mesma nação, do mesmo mar que navego.
A noite é a mesma que nos esconde e nos revela.
Esconde-nos por nos mergulhar no escuro que transporta.
Revela-nos por nos tornar todos mais iguais na forma, sublinhando-nos o ser, a palavra, os sinais.
Como as mãos de uma mulher no quente de uma cama, no torpor de um sono que ainda não pegou, sem que os olhos se entrelacem em palavras ditas, expressas.
Como as palavras que apenas lemos e muito mais nos tocam e aquecem do que se as ouvirmos nos lábios que sempre presumimos poderem mentir. Porque todos mentem.
É de intimidade que fala a noite, o escuro.
É de intimidade que falam os sinais do meu farol.
Os barcos, as naus e as jangadas que atravessam no profundo, podem ler o que lhes digo.
E como é mais íntimo ouvir alguém dizer "li-te", "leio-te" do que apenas "ouvi-te", "oiço-te".
Como é profundo ser lido por alguém.
Como é sublime o erro da expressão.
Não foi a mim que me leste, ó nau desconhecida, foi aos raios que no profundo lancei.
A não ser, navegante, que além do negro e da distância, possas ver na luz que te atiro, qualquer coisa que não descrevo. Qualquer coisa que, no fundo, com luz escrevo.

terça-feira, novembro 09, 2004

Diário de Bordo - Dia 5


Sereno

O dia corre sereno, como a água de veludo que se entorna num riacho lento.
O dia é tarde e é princípio de noite antes que dê conta de mim. E já menos um vento tenho para navegar, mais uma onda que me atirou ao mar.
Sem que o mar me sentisse de verdade, sem que nele mergulhasse com vontade.
A escolha que fiz, de navegar sem dono da minha rota, sem torre de controlo para me atirar, não basta. É preciso que a cada curva do olhar, a cada assopro vindo do horizonte, me sobre sempre vontade de escolher.
Escolher ficar ou escolher o mar.
E mesmo quando o caminho só me deixa continuar, é preciso que saiba ser meu o dedo que aponta. É por aqui. É por aqui que quero ir. É por aqui que me quero queimar.
Senão, a cada sol que se vai, a cada barco que passa, perdi um amor, uma dor, sem que o mar navegasse, sem que o farol avançasse.
E a cada sol que se gira, a cada nau que me fuja, sou mais fim sem caminho, sou rochedo sem vida, sou farol como os outros, sem leme ou destino. Sou pedaço de areia, que na praia se suja.

terça-feira, outubro 26, 2004

Diário de Bordo - Dia 4


Solto as Amarras

No momento da partida sempre sobra uma dúvida. Será que o mar me engole ou serei eu capaz de por ele trespassar? São dúvidas próprias de quem só sente a encosta de onde larga, sem vista para a chegada.
Aponto à frente a luz do meu farol, giro em volta o feixe que me transporta e, sem olhar para trás, evitando ver que a terra me não larga, salto de onda em onda, como se cavalgasse, rumo ao meu destino, rumo ao fundo de mim, seguindo um mar sem fim.
Já soltei as amarras, já larguei a vontade de ser como os outros, a tentação de ver na minha nave um farol que, de pés atados, à pedra una e fixa se amarra.
A tentação de ser gente, gente por inteiro, largando, escondendo o relinchar da minha metade que é cavalo, já eu abandonei. Fascina-me a linha ténue do horizonte, o vento que de lá sopra deve ser o mais suave, pela forma como a espuma do mar levanta.
O seu desenho certo chama-me, como se naquele sítio renascesse, como se de lá todo o meu ar viesse e sempre dele respirasse.
Agora navego. Já nem o som que rói a encosta me trava. Já nem o riso ou o choro me atrasa. Mar à vista! Subo a âncora, aponto o destino, arranco veloz.
Soa o urro do farol, trespasso o Mundo, sinto-me embalado e, sem rédeas, a minha metade cavalo, abraço.

quinta-feira, outubro 21, 2004

Diário de Bordo - dia 3


A Nau

Já tenho nau. É altiva e não obedece nem a Newton nem a Arquimedes.
É o meu farol que navega. Erguido de pedra e de cores que se apagam, quando a noite lhe dá vida.
Ao cair do sol, sentado ao leme de luz que me há-de levar e guiar, sou finalmente completo.
E a mim me estranha nesse instante que à voz me surja outro poema.
Poema antigo, como se outrora, numa estranha premonição, já ao mar me tivesse falado. Como se em tempos, mesmo sem provar, já o sal me tivesse salgado.

Não há hipótese
Há luzes que só luzem uma vez
E brilhos que só se agarram assim

Não esperes pela volta do farol
Dispara certo
Dispara sempre

Talvez a luz não volte
Ou se voltar
Não diga sim


E assim, já sem regresso possível senão o de o Mundo contornar, solto as amarras...

quarta-feira, outubro 20, 2004

Diário de Bordo - dia 2


O Porto de Partida

Cheguei à margem.
Comigo trago tudo o que preciso para navegar.
O ar carregado do mar que se desfaz solitário contra a pedra entranha-me, envolve-me como num beijo longo, carregado de alma e do vento que expira e eu inspiro.
Chamo a mim a propriedade da paisagem. Abraço-a e olha-a como que descoberta por mim. Só por mim.
Num cenário virgem, onde a espuma parece doce, a pedra se torna frágil e a terra não dura.
Naquele segundo do primeiro olhar e no segundo olhar desse mesmo momento, já só resta a certeza de que é dali que vou partir.

É naquele mar que quero navegar
É aos barcos que agora não vejo que quero acenar
E em lentidão avisar que um farol vai passar
Rumo ao mar
Rumo ao mais profundo e dentro de mim
Como se de mim a razão quisesse afastar
Por me bastar
O que na pele já sinto a suar
Deixem-me sonhar
Deixem-me passar


E do poema de rima pobre ditado pelo bater contínuo e perpétuo das águas, vem-me à ideia o som de uma guitarra, dedilhada por Paredes, encantada pelo mar e cantada pelo vento que desvanece o horizonte.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Diário de Bordo - dia 1



A árvore e o Sagitário

O dia está cinzento, agora. Sem o brilho de outras manhãs.
No meu caminho para o farol, passo por bocados da minha vida que quero levar. Quero levar o pão quente das manhãs, um doce de amoras e o vidro da janela da cozinha, o que me protege do vento que traz chuva.
Também quero levar um pouco de terra, daquela que cheira... a terra molhada, depois da chuva ainda quente do primeiro Outono a ter beijado.
E quero um pouco do sol que se põe, mas sem a maresia que vou agora provar todos os dias.
No meu caminho para o farol que me há-de levar como a Magalhães ao sítio que me verá partir, depois de sobre o eixo pesado da terra ter rodado e rodado, vejo também uma árvore que quero comigo. Não tem folhas, senão restos amarelos de um Verão que a queimou mas não matou. O seu tronco nu, a sua boca desenhada, parecem lançar-me um grito de aviso, um anúncio de tempestade. Como se o vento já ela própria soprasse, antes mesmo de o mar o construir.
A árvore faz-me sonhar, já não sobre como será a viagem, mas antes como será não embarcar.
Estendo à árvore a minha mão, para que navegue comigo e me traga um dia o verde que na Primavera vou precisar. Amarrado por raízes que não vejo, ligado a memórias que não sinto, o tronco castanho, meigo, torcendo-se à minha passagem, hesita.
Por estranho que pareça, oiço as suas folhas caídas e queimadas marcarem um ritmo de música e do alto uma voz simples canta uma melodia de criança que me lê nos astros:

"Ser de Sagitário

Você é metade gente metade cavalo
Durante o fim do ano cruza o planetário
Cavalga elegância
Cabeça em pé de guerra mansa
Nas mãos arco e flecha
Meu coração
Aguarda e acompanha o seu itinerário
Até ao fim do ano ser de Sagitário
Você é metade gente metade cavalo
Durante o fim do ano cruza o planetário"

Adriana Calcanhoto in Adriana Partimpim

O momento era sossegado. Fez-me parar. Não muito nem tudo. Apenas o necessário para que o tronco se soltasse e a mim se juntasse. Por um segundo ou por todo o mar, que no meu farol hei-de navegar, não interessa...


sábado, outubro 09, 2004

Diário de Bordo - Dia Zero



A decisão

Há manhãs em que a luz nos afaga, mas com tanta força que os olhos se debatem entre a vontade de se cerrarem e o desejo de se deslumbrarem.
São manhãs difíceis, em que não sabemos se havemos de ser o que somos, galgando o espaço que nos separa dos nossos sítios do costume, ou se havemos de parar naquela esquina que nunca vimos, por desde sempre a termos visto.
São manhãs difíceis em que percebemos que nem sempre a recta nos separa de forma mais curta daquilo que é o nosso destino.
São manhãs onde o frio se mistura com o quente, como que se o sol nos pudesse arrefecer, de tão branca ser a sua luz. Uma luz que já não é só sua, que o sol já perdeu, por brincar nas pedras do chão, na cor suja dos telhados e nas sombras agora claras dos becos ainda ontem escuros.
São manhãs especiais. São manhãs difíceis. Difíceis por nos trazerem caminhos de luz, caminhos diferentes. Por que não é só felicidade que nos trazem essas manhãs de luz, pois é nelas que se revelam os caminhos que guardamos normalmente além do horizonte que o rosto baixo dos dias cinzentos deixa ver. Protegidos da chuva, do vento, sem vontade de levantar os olhos, perdemos senão tudo, pelo menos o que não é o nosso caminho traçado num mapa de vida, onde as praças são pontos, as ruas são riscos e as árvores não existem.
Nesses dias de luz, manhãs claras, mesmo de olhos apertados pela luz que não nos ensinaram, temos a tentação de parar, ver e sobretudo de olhar. Saborear aquela árvore que hoje parece mais larga, mas ainda assim nos deixa ver janelas que ignorávamos e juramos nunca terem lá estado. Janelas que perdemos de abrir, rios que escusámos de navegar, mares que esquecemos de considerar.
Essas manhãs de sol, de luz fria e quente, são manhãs de um convite perverso. Riscam-nos o mapa que nos deram, convidam-nos a mergulhar, atiram-nos para fora do tempo. Deprimem-nos por percebemos que o mapa estava incompleto e entre os sítios das nossas vidas, havia afinal mais do que a recta crua, traçada a preto no papel branco.
Deprimem-nos, ou atiram-nos em viagens inconsequentes, sem se lembrarem do escuro que a noite há-de trazer e esquecendo o vento que nos há-de derrubar.
São manhãs difíceis, em que, por vezes, poucas vezes, poucos de nós damos a mão ao céu azul quase branco e nos deixamos perder.
De olhos fechados, mas percebendo a imensidão de luz que nos rodeia e nos trespassa as finas pálpebras, assumimos a espiral da escadaria infinita de um farol, para de lá, olharmos o Mundo que nos espera. E, sempre de olhos fechados, tomamos então o leme do farol que navega, para cruzar os mares. Para comandar a terra, sem planos, rasgando o mapa e acreditando que as ondas que nos batem, são antes ondas por nós trespassadas.


segunda-feira, outubro 04, 2004

O comandante e o Farol


Sempre senti uma inexplicável paixão por faróis.
Uma espécie de atracção esotérica e, não fosse eu ser dos cépticos em relação à reencarnação, teria que acreditar num passado trágico ou glorioso aos comandos de um farol.
Subir ao farol e de lá pairar sobre os medos, os receios, as fantasias e os gozos que o imenso oceano sempre nos sugere, faria de mim o comandante de toda a terra. Os navios ao longe, seriam para mim rochedos, dos quais me desviaria com o poder da luz. E a luz é o que mais perto nos coloca de entender a energia e Einstein.
No fundo, eu seria o marinheiro, ao leme de uma imensa nau de bonita madeira, resistente como a fria pedra, onde conviveriam piratas violadores, idosas moribundas, sorrisos de crianças descalças, tesouros de ouro falso.
A minha nau seria húmida e desconfortável, com tragédias, traições e estranhas formas de solidariedade e improvável amor. A minha nau, seria uma sociedade de condenados sem esperança e de heróis imortais sem consciência... como Einstein.
Também inventaríamos bombas atómicas que não rebentaríamos e novas formas de remar mais depressa. Também estenderíamos grandes velas, não só para que o vento nos levasse, mas também para que nos vissem ao longe. Para que nos vissem e de nós se desviassem.
Rasgando o mar, ignorando Neptuno, o meu farol seria, talvez, afinal, apenas um desejo de nostalgia, uma canção de embalar ou uma forma de poder espreitar, guiar, salvar, sem que, para tal, tivesse que suportar o olhar de quem receia naufragar...